
Nas últimas décadas, houve uma explosão de crescimento dos evangélicos no Brasil. Apesar de nos alegrarmos com os milhares de testemunhos de vidas transformadas, junto com esse crescimento exponencial há evidências cada vez maiores de que há “morte na panela” (2 Rs 4.40).
Enquanto o livro de auto-ajuda O Segredo está na lista da Veja dos mais vendidos no Brasil há 71 semanas (setembro de 2008) – até agora foram vendidos mais de 2 milhões de cópias em DVD e 13 milhões de livros no mundo todo –, ouve-se o mesmo tipo de ensinamento de um número cada vez maior de púlpitos evangélicos.
Um artigo da revista Veja (26 de setembro de 2003) ressalta esses dois assuntos (crescimento evangélico e ênfase em auto-ajuda) em um só parágrafo curto: “Enquanto a Igreja Católica não conseguia ordenar mais do que 900 padres por ano, só um único instituto evangélico de São Paulo formava, no mesmo período, 200 pastores. São pastores de uma nova geração, mais centrados na auto-ajuda e menos no sobrenatural do que seus predecessores – nada da ira e dos exorcismos de Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ou de R. R. Soares, o onipresente telepastor da Internacional da Graça de Deus”.
Mas, afinal, o que há de errado na filosofia de vida defendida por Rhonda Byrne (autora do livro O Segredo) e por tantos outros autores e pregadores de auto-ajuda? Deus não quer tirar-nos do fatalismo passivo, da incredulidade paralisante e da miséria financeira que predominam há séculos neste país? Jesus não disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.9)? Ele não afirmou em outra ocasião: “Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu” e “Se dois de vós na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito” (Mt 18.18,19, ênfase acrescentada)?
Não foi por meio de uma revelação pessoal da passagem de Marcos 11.22-24 (“Qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito... Tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebestes, e tê-lo-eis”) que Kenneth Hagin foi curado miraculosamente de uma doença terminal em 1934, abrindo o caminho a centenas de outras grandes curas milagrosas testemunhadas por ele durante mais de 50 anos a partir de então? Não foi por seu método de sonhar, de “engravidar” daquilo que se almeja, visualizar e imaginar, em todos os detalhes, o objetivo desejado que David Yonggi Cho levantou a maior igreja do mundo na Coréia do Sul?
Diferenças Fundamentais
É óbvio que, em um artigo curto como este, não é possível dar respostas detalhadas a essas perguntas. Porém, tentaremos ressaltar alguns pontos essenciais que podem ajudar-nos a localizar “a morte na panela” e separar “o joio do trigo”.
1. De onde procede a resposta ao anseio do homem?
A essência da filosofia de auto-ajuda defendida por Rhonda Byrne é: “Pense, acredite, receba”. É a Lei da Atração. “No momento em que você pede alguma coisa, e acredita, e sabe que já a tem no invisível, o Universo inteiro se move para deixá-la visível” (Rhonda Byrne: O Segredo, pág.49. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006).
Há uma diferença vital entre os ensinamentos de Jesus e os dos gurus: Jesus afirma que é do Pai que vem a resposta, enquanto os mestres de auto-ajuda sempre se referem a duas fontes distintas: o universo e o próprio homem. No fim, acabam considerando os dois como um só, porque o homem faz parte do universo. Para eles, a grande dicotomia de Criador e criatura, revelada na primeira frase da Bíblia (“No princípio, criou Deus os céus e a terra” – Gn 1.1), não existe. A criatura é o criador. Deus está em nós e em todo o universo. O universo é Deus. Portanto, baseados nessa falsa premissa fundamental, afirmam que nós somos Deus e podemos mudar nosso destino. Basta querer!
2. Qual é o propósito da vida?
Veja as seguintes citações do livro O Segredo:
Portanto, seu objetivo é o que você determinar. Sua missão é a que você se atribui (Neale Donald Walsch).
Levei muitos anos para chegar a este ponto, porque fui criado com a noção de que havia algo que eu deveria fazer, e, se eu não fizesse, Deus não ficaria satisfeito comigo. Quando entendi concretamente que minha meta principal era sentir e vivenciar alegria, comecei a fazer só o que me alegrasse. Meu lema é: “Se não é divertido, não faça!” (Jack Canfield).
Faça as coisas que lhe trazem prazer e alegria. Se você não sabe do que gosta, pergunte: “Qual é o meu prazer?” E quando você encontrá-lo e se dedicar a ele, ao prazer, a lei da atração irá derramar em sua vida uma avalanche de coisas, pessoas, situações, acontecimentos e oportunidades alegres, só porque você está irradiando alegria (Jack Canfield).
Como se pode ver, as filosofias de auto-ajuda ensinam que vivemos para o próprio prazer. Somos nós que determinamos o que é bom para nós.
A Bíblia, porém, do princípio ao fim, enfatiza que o homem existe para amar e agradar a Deus. Conseqüentemente, Deus não é apenas aquele que responde nossas orações e anseios, mas também é aquele a quem prestaremos contas pela maneira como conduzimos nossa vida na Terra. Em suma, não estamos na Terra para sermos felizes, mas para fazer Deus feliz. Por outro lado, se isso é verdade, fomos feitos de tal forma que só podemos ser felizes quando ele é feliz. Essa é a essência do amor. O amor se interessa tanto pela felicidade alheia que não consegue ser feliz sem que o outro o seja.