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domingo, 13 de dezembro de 2009

Reconcilie-se com a desilusão por Ricardo Gondim


Li “Trem Noturno para Lisboa” de Paul Mercier, Editora Record, e o autor aconselha que nos reconciliemos com a desilusão:

A DESILUSÃO é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? [...]

Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como um vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

Paul Mercier em Trem Noturno para Lisboa - Editora Record, p. 233).

Confesso publicamente minhas desilusões. Contudo, procuro desalojar a decepção de seu negativismo. Assim, acredito que algumas questões não podem ficar esquecidas devido as angústias. Enfrentemos as tristezas. Elas não são tão medonhas como parecem.

1. Os períodos magros, as estiagens, os marasmos não significam fracasso automático. A história há de repicar. A vida não é paraíso, nem inferno. Compete-nos a dura tarefa de não nos deixar esmagar pelo sofrimento ou inebriar pelo triunfo. Diante da real possibilidade de nossos projetos fazerem água, não nos iludamos com desculpas esfarrapadas. Os insolventes podem se reinventar. Ressurreição é termo que só se aplica a quem passou pela experiência da morte.

2. As tribulações oferecem excelente oportunidade para percebermos o excesso de bagagem. O que se tornou oneroso na vida? O que foi procrastinado em nome de lealdades institucionais? Na borrasca, joguemos fora a carga desnecessária. Assumamos a coragem de dizer adeus ao que não tem valor.

3. Nas desilusões, nos adequamos ao pior, e qualquer leve melhora parece um paraíso. Aprendemos a sobreviver sem fazer concessão, sem negociar valores, sem vender a alma. As desilusões nos incitam a fazermos reengenharia de nossa estrutura existencial.

Li no site:http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&id=2302

sábado, 12 de dezembro de 2009

Quando a inspiração acaba por Ricardo Gondim


Os poucos lampejos de criatividade que colorem minha escrita minguaram faz uns três ou quarto meses. Tornei-me menino com fastio. Sento para escrever, mas refugo a comida com sustância. Sirvo pão dormido, redijo sem encanto. Tento, porém, depois de dias e dias sem brilho, o texto sai a fórceps. Acorrentando por dentro e banhado de suor, minha redação vira pedra de Sísifo.

Recuso espremer lição desses momentos áridos. Não quero aprender coisa nenhuma nos meus hiatos. Vou deixar que os lendários quarenta dias no deserto purguem minha vã pretensão de instrumentalizar a vida. Sussurro: "Hei de não aprender coisa alguma na esterilidade". Infecundo como Ana, não suplicarei filhos. Na vastidão árida dos meus vales interiores, caminharei sem tomar nota dos detalhes interessantes. Satisfeito, não reclamarei a ausência de barulhos. Contento-me em ser banal, em repetir chavões. Sim, repito-me como o sino monótono da igreja de minha infância.

Abro mão da orginalidade. Viver deixou de ser preciso, mas, vago e inexato. Sigo, apenas sigo, ao sabor do vento. Bailo com as marés. Hiberno enquanto aguardo a próxima primavera.

Talvez a felicidade more exatamente nessa desambição melancólica. Despido de expectativas, tudo fica bom. Leve, escrevo sem a ansiedade de agradar. Livre, confundo a sintaxe sem conformar-me a estilo nenhum. Solto, deixo que os dedos desobedeçam a mente, e aceitem ordens do coração.

Meu viver tem essas esquisitices. Acordo afoito, e fantasio produzir uma bela obra literária. Depois, oscilo emocionalmente e a vida se reduz a um existir sem cores. Temendo críticas, prometo que, semelhante a Jesus, só escreverei na areia. Farto com a Agremiação que cobra coerência, abandono as lógicas. Digo que me contento com devaneios.

Talvez meu luto não tenha passado. Neste ano, amigos morreram em cascata. Decepções não deram tréguas. Abandonos se sucederam. Fatigas se acumularam. Sonhos continuaram a desbotar. Negocio com o coração e com as pernas a próxima passada. Dou razão a Fernando Pessoa: “Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada”.

Nesta precariedade existencial, e com esse marasmo criativo, sobra o dever de continuar; de considerar a fidelidade uma virtude inegociável. E dizer: tudo passa, inclusive este tempo.

Li no site: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2295

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O filão religioso / Ricardo Gondim


As Casas Bahia disputam o mesmo mercado que a Magazine Luiza. As duas lojas se engalfinham para abocanhar o filão dos eletrodomésticos, guarda-roupas de madeira aglomerada e camas de esponja fina. Buscam conquistar assalariados, serralheiros, aposentados e garis. Em seus comercias, o preço da geladeira aparece em caracteres pequenos, enquanto o valor da prestação explode gigante na tela da televisão. A patuléia calcula. Não importa o número de meses, se couber no orçamento, uma das duas, Bahia ou Luiza, fecha o negócio - o juro embutido deve ser um dos maiores do mundo.

Toda noite, entre oito e dez horas, a mesma lengalenga se repete nos programas evangélicos. Pelo menos quatro “ministérios” concorrem em outro mercado: o religioso. Todos caçam clientes que sustentem, em ordem de prioridade, os empreendimentos expansionistas, as ilusões messiânicas e o estilo de vida nababesco dos líderes. Assim, cada programa oferece milagres e todos calçam suas promessas com testemunhos de gente que jura ter sido brindada pelo divino. Deus lhes teria abençoado com uma vida sem sufoco. Infelizmente, o preço do produto religioso nunca é explicitado. Alardeia-se apenas a espetacular maravilha.

Considerando que a rádio também divulga prodígios a granel, como um cliente religioso pode optar? Para preferir uma igreja, precisa distinguir sobre qual missionário, apóstolo, pastor ou evangelista, Deus apontou o dedo. E se tiver uma filha com leucemia aguda, não pode errar. Ao apelar para uma igreja com pouco poder, perde a filha. O correto seria freqüentar todas. Mas como? Em nenhuma dessas igrejas televisivas o milagre é gratuito ou instantâneo. As letrinhas, que não aparecem na parte de baixo do vídeo, afirmariam que, por mais “ungido” que for o missionário, um monte de exigência vem embutida na promessa da bênção. É preciso ser constante nos cultos por várias semanas, contribuir financeiramente para que a obra de Deus continue e, ainda, manter-se corretíssimo. Um deslize mínimo impede o Todo Poderoso de operar; qualquer dúvida é considerada uma falta de fé, que mata a possibilidade do milagre.

Lojas de eletrodoméstico vendem eletrodoméstico, óbvio. Igrejas evangélicas comercializam a idéia de que agenciam o favor divino com exclusividade. E por esse serviço, cobram caro, muito caro. Afinal de contas, um produto celestial não pode ser considerado de quarta categoria. A "Brastemp" espiritual que os teleevangelistas oferecem vem do céu. O acesso ao milagre se complica, porque todos mercadejam o mesmo produto. Os critérios de escolha se reduzem a prazo de entrega, conforto e garantia. Opa, quase esqueci! As lojas, em conformidade com o Código do Consumidor, são obrigadas a dar garantia, mas as igrejas evangélicas não dão garantia alguma. O cliente nunca tem razão. Quando a filha morrer de leucemia, o pai, além de enlutado, será responsabilizado pela perda. Vai ter que escutar que a menina morreu porque ele “deu brecha” para o diabo, não foi fiel ou não teve fé.

Mercadologicamente, Casas Bahia e Magazine Luiza estão bem à frente das igrejas. Melhor assim, geladeira nova é bem mais útil do que a ilusão do milagre.

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br

Vi em http://dlgrubba.blogspot.com/2009/03/o-filao-religioso.html

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Missão do Pastor por Ricardo Gondim


Querido Diego,

Por favor, desculpe-me pela demora em escrever. Ando sobrecarregado. Mas preciso voltar à sua antiga pergunta sobre a missão do pastor.

Passei por crise semelhante. Por volta dos meus quarenta e poucos anos, perguntei-me o que fazia da vida. Cansei dos esquemas dos evangelistas itinerantes. Eles me entediavam com suas pregações repetitivas. Caíram algumas vendas e vi os interesses escusos dos missionários estrangeiros que tiravam fotografias de eventos brasileiros para fazerem propaganda nos Estados Unidos. Chorei amargamente quando notei que os “caciques” das grandes denominações eram mais grosseiros que os políticos de que eu desdenhava.

Acordei também para os meus pecados sutis. Vi que não só partilhava de um mundo religioso doente, mas o reforçava com uma vaidade sedenta de prestígio. Eu sabia, mas não queria abrir mão, da minha vontade louca de aparecer. Eu queria construir um nome e tornar-me notório pela “unção”, “autoridade”, “loquacidade”. Ah, como eu já quis despontar como um “pastor bem sucedido”! Queria ser igual aos famosos que conhecia, principalmente os estrangeiros, que arrebatavam multidões.

Esses messianismos, essas falsas onipotências, começaram a desmoronar depois de um culto quando uma jovem fez algumas perguntas desconcertantes. Marli (nome fictício) era graduada em filosofia na Universidade de São Paulo e, devido ao seu senso crítico, me confrontou com serenidade.

“Ricardo, cadê a vida abundante prometida por Jesus”?. Pego assim de supetão, eu não soube o que responder. Tentei me safar com outra pergunta. “O que você quer saber?”, na verdade eu só queria ganhar tempo com minha réplica. Ela não cedeu: “Pastor, quero entender. O que Jesus prometeu tem conexão com a realidade da vida? Ou a vida abundante que ele falava era apenas um desejo utópico dos apóstolos?”. Nervoso, insisti em perguntar ainda procurando ganhar tempo: “Como assim?”. “Se Jesus prometeu que seus seguidores experimentariam vida abundante, quero saber por que não vejo acontecer concretamente?”.

Nessa hora tive que dar a mão à palmatória. “Marli, você tem razão a vida abundante prometida por Jesus aparece muito mais nos discursos do que na concretude da vida. Entretanto, o problema não é dele ou dos apóstolos, mas nosso”.

O discurso religioso promete muito mais do que cumpre. Dificilmente constatam-se evangélicos com qualidade de vida melhor do que as pessoas não convertidas. Problemas conjugais, instabilidade emocional, patologias psíquicas, permanecem intocados na grande maioria das igrejas que alardeiam que seus fiéis terão uma “vida abundante”. Enquanto os auditórios se maravilham com discursos triunfalistas que asseguram o melhor casamento, felicidade total no trabalho e paz duradoura, enormes problemas são varridos para debaixo dos tapetes ou justificados como “falta de fé”, “desobediência”; ou resultado de “ataques do diabo”. Por que isso acontece?

Priorizou-se a “salvação” como uma esperança a ser alcançada depois da morte. E as igrejas, cada uma se acreditando mais legítima, se especializam em oferecer o bilhete para a vida eterna - que só vai começar quando o coração parar de bater. Assim, meticulosas em “dar certeza da salvação” aos seus convertidos, não se preocupam em ensinar como viver do lado de cá. Com esse modelo, comumente se vê gente segura de que vai para o céu, mas sem saber lidar com os momentos triviais da existência.

Em minha experiência pastoral, já tive o desprazer de aconselhar mulheres super espirituais, que se gabam do nome estar “escrito no livro da vida”, mas intoleráveis, mal-resolvidas e tristes. Recentemente precisei gastar três horas com um pastor que há anos prometia o céu para quem “levantasse a mão para aceitar Jesus”; só que ele não sabia resolver seus dilemas sexuais. No meio de nossa conversa, abatido ele me confidenciou: “Ricardo, estou vivendo num inferno”.

Sua missão, meu caro Diego, é ajudar às pessoas a tratarem a vida eterna como uma possibilidade para aqui, para a terra. Aliás, a dimensão transcendental da salvação não compete a você; não depende de seus esforços e não acontecerá como resultado de sua confiabilidade ou unção. Salvação, vida eterna, foi conquista da cruz. Ela é obra vicária de Cristo, o mérito será sempre dele. Vida eterna é distribuída indistintamente a todos pela graça; e só o Espírito Santo convence do pecado, da justiça e do juízo.

Concentre-se em mostrar que o reino de Deus é chegado e que está entre nós. Livre das condenações da lei, sem precisar compensar os pecados com penitências e, sem ter que ganhar o favor divino com obras, a humanidade pode dar início ao projeto de humanizar-se. Neste propósito divino, crescemos em maturidade, nos solidarizamos com os carentes, exercitamos misericórdia e sempre defendemos a justiça.

Você precisa desvencilhar-se do antigo modelo de evangelização, que promete uma salvação para depois do último fôlego. Comece a pregar a chegada do Reino, só assim as pessoas se sentirão estimuladas a mudar e essa tarefa é extraordinária.

Mude o mote de suas pregações. Aborde questões práticas sobre matrimônio, polidez, cordialidade, cidadania, vulnerabilidade, altruísmo, compaixão, preocupação ecológica, dignidade da mulher, educação infantil. Acredito que o cristianismo verdadeiro deveria preocupar-se muito mais com o jeito como as pessoas guiam seus automóveis do que em dar-lhes “garantias” de que vão para o céu.

Não, não pense que desconsidero o céu; essa é nossa esperança eterna, nossa maior riqueza. Contudo, eu realmente creio que o destino eterno de cada indivíduo foi garantido pelo sacrifício de Cristo na cruz e que, não precisando mais nos preocupar com esse importantíssimo assunto, podemos nos concentrar nos demais. Alguns são, sim, menos importantes diante da eternidade, mas fazem uma enorme diferença para a felicidade das mulheres, maridos e filhos.

Minha sugestão é que você releia os Evangelhos; procure as mensagens em que Jesus ensinou a ganharmos a vida no presente. Você se lembra daquela passagem de Mateus 16.26? “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?”. Antigamente eu entendia esse texto como uma advertência para que não me tornasse um grande conquistador ou um milionário e acabar no inferno. Hoje eu o leio numa dimensão existencial. Acredito que Jesus advertia seus discípulos para que não tentassem nenhuma conquista, se no processo perdessem a alma existencialmente. Para Jesus não adianta querer ter tudo (inclusive o céu) se nessa busca nos tornarmos amargos, calculistas e torpes.

As religiões, o cristianismo inclusive, já garantiu que muita gente inclemente, perversa e promotora da morte iria para o céu. Infelizmente!

Eu já não peço que as pessoas levantem a mão, concordando com a minha pregação; como também não lhes asseguro que, daquela hora em diante, receberão um selo que lhes garantirá o céu. Hoje convido as pessoas a começarem uma peregrinação. Cientes do amor de Deus, todos podem tomar o caminho proposto por Jesus de Nazaré. Nesta trilha, na companhia do Espírito Santo, todos se tornarão novas criaturas.

Você vai precisar de muita coragem para remodelar seu ministério, mas conte com minha ajuda e intercessão.

Soli Deo Gloria.
www.ricardogondim.com.br

segunda-feira, 23 de março de 2009

Verdade “versus” alucinação por Ricardo Gondim


O culto pegava fogo. O frenesi do povo crescia, estimulado por um pastor quase grisalho, engravatado e bastante brilhantina nos cabelos. Mesmo acostumado a ambientes pentecostais, estranhei o exagero dos gestos e das palavras. Concentrei-me para entender o que o pastor dizia em meio a tantos gritos. Percebi que ele literalmente dava ordens a Deus. Exigia que honrasse a sua Palavra e que não deixasse “nenhuma pessoa ali sem a bênção”. Enquanto os decibéis subiam, estranhei o tamanho da sua arrogância. A ousadia do líder contagiou os participantes. Todos pareciam valentes, cheios de coragem. Assombrei-me quando ouvi uma ordem vinda do púlpito: “Chegou a hora de colocarmos Deus no canto da parede. Vamos receber o nosso milagre e exigir os nossos direitos”. Foi a gota d’água. Levantei-me e fui embora.

Os ambientes religiosos neopentecostais se tornaram alucinatórios porque geram fascínio por poder e pela capacidade de criar um mundo protegido e previsível. Por se sentirem onipotentes, buscam produzir uma realidade fictícia. Para terem esse mundo hipotético, os sujeitos religiosos chegam ao cúmulo de se acharem gabaritados para comandar Deus. É próprio da religião oferecer segurança, mas os neopentecostais querem produzir garantia existencial com avidez.

Em seus cultos, procuram eliminar as contingências, com a imprevisibilidade dos acidentes e os contratempos do mal. Acreditam-se capazes de domesticar a vida para acabar com a possibilidade de seus filhos adoecerem, de as empresas que dirigem falirem e de se safarem caso estejam em ônibus que despenca no barranco. Almejam uma religião preventiva, que se antecipa aos solavancos da vida. Imaginam-se aptos para transformar a aventura de viver em mar de almirante ou em céu de brigadeiro.
Acontece que essa idéia de um mundo sem percalços não passa de alucinação. Por mais que se ore, por mais que se bata o pé dando ordens a Deus, o Eclesiastes adverte: “O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazê-lo” (9.2).

Mas a pergunta insiste: por que os cultos neopentecostais lotam auditórios e ganham força na mídia? Repito, pelo simples fato de prometerem aos fiéis o poder de controlar o amanhã, eliminar os infortúnios e canalizar as bênçãos de Deus para o presente. Quando oram, pretendem gerar ambientes pretensiosamente capazes de antever quaisquer problemas para convertê-los em fortuna e felicidade.

Esta premissa deve ser contestada. Pedir a Deus para nunca se contrariar, ou para ser poupado de acidentes, significa exigir que ele coloque os seus filhos em uma bolha de aço. A vida é contingente. Tudo pode ocorrer de bom e de ruim. Uma existência sem imprevisibilidade seria maçante. O perigo da tempestade, a ameaça da doença, a iminência da morte fazem o dia-a-dia interessante.

A verdade não produz necessariamente felicidade. Verdade conduz à lucidez. O delírio, porém, tranqüiliza e gera um contentamento falso. Muitos recorrem à religião porque desejam fugir da verdade e se arrasam porque a paz que a alucinação produz não se sustenta diante dos fatos.

Cedo ou tarde, a tempestade chega, o “dia mau” se impõe e o arrazoamento do religioso cai por terra. Interessante observar que Jesus nunca fez promessas mirabolantes. Como não se alinhou aos processos alienantes da religião, ele não garantiu um mundo seguro para os seus seguidores. Pelo contrário, avisou que os enviaria como ovelhas para o meio dos lobos e advertiu que muitos seriam entregues à morte por seus familiares. Sem rodeio, afirmou: “No mundo vocês terão aflições”.
Quando o Espírito conduziu Jesus para o deserto, o Diabo lhe ofereceu uma vida segura, sem imprevistos. As três tentações foram ofertas de provisão, prevenção e poder, mas ele as rechaçou porque as considerou mentirosas. O mundo que o Diabo prometia não existe.

Porém as pessoas preferem acreditar em suas ilusões. Fugir da crueza da vida é uma grande tentação. Em um primeiro momento, parece cômodo refugiar-se da realidade, negando-a. É bom acreditar que a riqueza, a saúde, a felicidade estão pertinho dos que souberem manipular Deus.

O mundo neopentecostal se desconectou da realidade. Seus seguidores vivem em negação. Não aceitam partilhar a sorte de todos os mortais. Confundem esperança com deslumbre, virtude com onipotência mágica, culto com manipulação de forças esotéricas e espiritualidade com narcisismo religioso.

Os sociólogos têm razão: o crescimento numérico dos evangélicos não arrefecerá nos próximos anos. Entretanto, o problema é qualitativo. O rastro de feridos e decepcionados que embarcaram nessas promessas irreais já é maior do que se imagina.

A demanda por cuidado pastoral vai aumentar. Os egressos do “avivamento evangélico” baterão à porta dos pastores, perguntando: “Por que Deus não me ouviu?” ou “O que fiz de errado?”. Será preciso responder carinhosamente: “Não houve nada de errado com você. Deus não lhe tratou com indiferença. Você apenas alucinou sobre o mundo e misturou fé com fantasia”.

“Soli Deo Gloria”.


• Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O DESESPERO DE TER QUE AGRADAR por Ricardo Gondim


Sinto melancolia ao lembrar o dia em que João correu ao meu lado. Ele tinha 25 anos de idade e era magro; por isso, não precisava esforçar-se para manter meu ritmo. Com fôlego sobrando, de repente, João começou a me contar que se sentia deprimido. Perguntei-lhe se identificava alguma causa para sua tristeza. “Medo de fracassar”, retrucou, entre um passo e outro.

Pelo restante do percurso procurei mostrar-lhe que podia descansar, pois Deus nos ama sem cobrar desempenhos e, mesmo nunca alcançando êxito, continuamos queridos por ele; falei-lhe que Deus, ao contrário das pessoas, não desiste dos malsucedidos. Porém, duas semanas depois, chorei: João se suicidara.

João tinha medo do futuro e, por mais que tenha se esforçado, não conseguiu reverter seu desespero. Sua morte me desmoronou. Eu aprendera a amá-lo. Meus conselhos e orações, aliados ao cuidado de outros cristãos, não o ajudaram. Nada, absolutamente nada, reverteu seu desânimo, e ele se puniu com o mais desastroso ato — castigando a todos nós.

Angústia e depressão fazem parte da nossa existência. Vários personagens da história secular e bíblica tentaram fugir para dentro de cavernas escuras em momentos semelhantes; abatidos, nem sequer imaginavam encontrar forças que lhes devolvessem esperança. Essa apatia não lhes tirava apenas o sono; acordados, tinham de conviver com um pessimismo infinitamente triste. Pensamentos mórbidos não são incomuns, porém, não precisam terminar de forma tão horrível.

No trágico suicídio do João, aprendi que as pessoas não têm, necessariamente, medo de morrer, elas se apavoram por não saberem viver. A inevitabilidade da morte não as assusta, elas só querem evitar uma vida sem valia, que vem da noção de que existimos, mas desapareceremos sem importância.

O escritor Milan Kundera afirmou: “Todo mundo tem dificuldade de aceitar o fato de que desaparecerá, desconhecido e despercebido, num universo indiferente”. Isso explica por que algumas pessoas se esforçam tanto para realizar algo extraordinário — até cometer um crime. Todo mundo quer ser valorizado em vida e lembrado depois de morto.

Meses depois, contaram-me que João passara a infância angustiado com o desejo de agradar seu pai, mas intuindo que nunca conseguiria. Na adolescência, jogava futebol com os olhos fitos na arquibancada, esperando ganhar um sorriso de aprovação, que não vinha. João formou-se em engenharia, mas, envergonhado, não celebrou: não alcançara nota máxima em todas as matérias. Assim, ao projetar sua vida futura, se deprimia antecipando possíveis fracassos.

Preocupa-me que o mundo religioso ocidental enfatize tanto as exigências rigorosas de um Deus difícil de ser agradado. A maioria dos evangélicos brasileiros jamais concordaria com isto que Gilberto Gil canta: “Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que aceitar a dor/ Tenho que comer o pão/ Que o diabo amassou/ Tenho que virar um cão/ Tenho que lamber o chão”. Contudo, o comportamento da maioria confirma o conteúdo da música. A espiritualidade que se difunde e prevalece atualmente oprime as pessoas com fardos pesados. Multiplicam-se pelo Brasil igrejas que não deixam as pessoas esquecerem suas dívidas perante um Deus implacável na defesa de sua lei.

Nessa religião, ninguém descansa já que se culpam as inadequações humanas pelos revezes da vida, e todo contratempo acontece como resultado de pecados ou de eventuais brechas por onde o diabo entra. Multidões lotam essas igrejas, ávidas por saberem como agradar um Deus manhoso. Desse modo, cultuam sem jamais esperarem afetos ou compaixão da parte dele. Tudo se resume em como conseguir afastar o mal e “alcançar bênçãos”. Se alguém almejar “conquistar” o amor divino, precisará fazer sacrifício, passar por ritos punitivos e, lógico, dar ofertas.

As pessoas não precisam desse tipo de religião, o fardo de viver já lhes pesa. Elas carecem de uma mensagem diferente: Deus não desiste de amar, mesmo quando seus filhos não merecem. Seu amor é leal. Nada diminuirá seu compromisso de oferecer seu melhor para que seus filhos cresçam.

Na parábola do pródigo, o Pai disse ao filho mais velho: “Tudo o que tenho é seu”. Essa frase precisa ressoar na mente de todos os cristãos, pois ela contém a promessa bíblica de que somos co-herdeiros com Cristo. Deus não estima as pessoas por sua capacidade de cumprir mandamentos ou alcançar níveis excelentes de santidade, ele ama gratuitamente.

Chorei com a morte do João, mas solidifiquei minha percepção da graça. O bem que Deus despeja sobre seus filhos não vem atrelado a desempenho e ele não abandona os malogrados.

Ninguém precisa ter medo de fracassar, porque ninguém precisa fazer jus ao amor de Deus. Ponto final. Assim, qualquer um pode se sentir convidado para o banquete divino e colocar-se rumo ao fantástico projeto de ser lapidado à imagem de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria.

Retirado do site: www.utlimato.com.br

sábado, 15 de março de 2008

Conselhos para sobreviver ao mundo gospel por Ricardo Gondim

O mundo gospel se torna cada dia mais patético; distante do protestantismo; em rota de colisão com o cristianismo apostólico; transformado numa gozação perigosa; adoecendo e enlouquecendo milhares que são moídos numa engrenagem que condena a um duplo inferno.


Não consigo responder a todas as mensagens que entopem minha caixa postal. Milhares pedem socorro. Eu precisaria ter uma equipe de especialistas, todos me ajudando a atender os que me perguntam: “ a maldição do pastor vai pegar mesmo?”; “é preciso aceitar as patadas que recebo do púlpito?”; “em nome da evangelização, devo aturar esses sermões ralos?”.

Realmente não dá mais. A grande mídia propaga o que há de pior entre os evangélicos com petição de dinheiro, venda de “Bíblias fantásticas”, milagres no atacado e simplismos hermenêuticos. As bobagens alcançaram níveis intoleráveis.

O que fazer? Tenho algumas idéias.

Aconselho que os crentes parem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre CD de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - idem, para os meus. Depois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam.

Não vá a congressos - inclusive o que eu promovo. Passe ao largo dos "louvorzões". Não sintonize o rádio. Boicote todos os programas na televisão. Não comente, nem critique, a pregação de pastores, bispos, evangelistas e apóstolos. Afaste-se! Silencie! Desintoxique mente, alma e espírito da linguagem, pressupostos e lógicas da "teologia da prosperidade". Volte a ler a Bíblia sem nenhum comentário de rodapé. Alimente seu interior em pequenos grupos. Reúna-se com gente de bom senso.

Estanque seus dízimos e ofertas imediatamente. Repense com absoluta isenção onde vai dar dinheiro. Mas prepare-se; no instante em que diminuírem as entradas, os lobos vestidos de pastor subirão o tom das intimidações. Não tenha medo. Faça essa simples auditoria antes de investir o seu suor em qualquer igreja ou ministério:

  • Quanto tempo é gasto no culto para pedir dinheiro?
  • A hora do ofertório vem acompanhada de uma linguagem com “maldição, gafanhoto ou licença legal para ataques do diabo”?
  • Prometem-se “prosperidade, colheita abundante, bênção, riqueza”, para os que forem fiéis?
  • Existe alguma suspeita na administração dos recursos arrecadados? – Lembre-se que há dois níveis de integridade: o ético e o contábil. Não basta manter os livros em ordem; o dinheiro também só pode ser gasto no que foi arrecadado.

Se a resposta para alguma dessas perguntas for sim, ninguém deve se sentir culpado quando não der oferta.

Só haverá arrependimento no dia em que os auditórios se esvaziarem junto com uma crise financeira - o monumental ufanismo evangélico precisa deflacionar.

Concordo, ninguém agüenta o jeito como as coisas estão.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim