Há dois modelos básicos de igreja. Há os chamados para fora... e os chamados para dentro.
Igreja, de acordo com Jesus, é comunhão de dois ou três... em Seu Nome... e em qualquer lugar... E mais: podem ser quaisquer dois ou três... e não apenas um certo tipo de dois ou três... conforme os manequins da religião.
Igreja, de acordo com Jesus, é algo que acontece como encontro com Deus, com o próximo e com a vida... no ‘caminho’ do Caminho.
Prova disso é que o tema igreja aparece no Evangelho quando Jesus e Seus discípulos estavam no ‘caminho’ para Cesareia de Filipe: um lugar ‘pagão’ naqueles dias.
Assim, tem-se o tema igreja tratado no ‘caminho’ e em direção à ‘paganidade’ do mundo.
Para Jesus o lugar onde melhor e mais propriamente se deve buscar o discípulo é nas portas do inferno, no meio do mundo! Não posso conceber, lendo o Evangelho, que Jesus sonhasse com aquilo que depois nós chamamos de ‘igreja’.
Digo isto porque tanto não vejo Jesus tentando criar uma comunidade fixa e fechada, como também não percebo em Seu espírito qualquer interesse nesse tipo de reclusão comunitária.
No Evangelho o que existe em supremacia é a Palavra, que tanto estava encarnada em Jesus como era o centro de Sua ação. No Evangelho nenhuma igreja teria espaço, posto que não acompanharia o ritmo do reino e de seu caminhar hebreu e dinâmico.
Jesus escolhe doze para ensinar... não para que eles fiquem juntos. Ao contrário, a ordem final é para ir... Enfim... são treinado a espalhar sementes, a salgar, a levar amor, a caminhar em bondade, e a sobreviver com dignidade no caminho, com todos os seus perigos e possibilidade (Lc 10).
No caminho há de tudo. Jesus é o Caminho em movimento nos caminhos da existência. E Seus discípulos são acompanhantes sem hierarquia entre eles.
No mais... as multidões..., às quais Jesus organiza apenas uma vez, e isto a fim de multiplicar pães. De resto... elas vem e vão... ficam ou não... voltam ou nunca mais aparecem... gostam ou se escandalizam... maravilham-se ou acham duro o discurso...
Mas Jesus nada faz para mudar isto. Ele apenas segue e ensina a Palavra, enquanto cura os que encontra.
Ao contrário..., vemos Jesus dificultando as coisas muitas vezes, outras mandando o cara para casa, outras dizendo que era preciso deixar tudo, outras convidando a quem não quer ir...; ou mesmo perguntando: Vocês querem ir embora?
Não! Jesus não pretendia que Seus discípulos fossem mais irmãos uns dos outros do que de todos os homens.
Não! Jesus não esperava que o sal da terra se confinasse a quatro dignas e geladas paredes de maldade.
Não! Jesus não deseja tirar ninguém do mundo, da vida, da sociedade, da terra... mas apenas deseja que sejamos livres do mal.
Não! Jesus não disse “Eu sou o Clube, a Doutrina e a Igreja; e ninguém vem ao Pai se não por mim”.
Assim, na igreja dos chamados para fora, caminha-se e encontra-se com o irmão de fé e também com o próximo que não tem fé... e todos se trata com amor e simplicidade.
Em Jesus não há qualquer tentativa de criar um ambiente protegido e de reclusão; e nem tampouco a intenção de criar uma democracia espiritual, na qual a média dos pensamentos seja a lei relacional.
Em Jesus o discípulo é apenas um homem que ganhou o entendimento do Reino e vive como seu cidadão, não numa ‘comunidade paralela’, mas no mundo real.
Na igreja de Jesus cada um diz se é ou não é...; e ninguém tem o poder de dizer diferente... Afinal, por que a parábola do Joio e do Trigo não teria valor na ‘igreja’? Na igreja de Jesus... pode-se ir e vir... entrar e sair... e sempre encontrar pastagem.
O outro modo de ser igreja é, todavia, aquele que prevaleceu na história. Nele as pessoas são chamadas para dentro, para deixar o mundo, para só considerarem ‘irmãos’ os membros do ‘clube santo’, e a não buscarem relacionamentos fora de tal ambiente.
A comunidade de Jerusalém tentou viver assim e adoeceu! Claro! Quem fica sadio vivendo num mundo tão uniforme e clonado? Quem fica sadio não conhecendo a variedade da condição humana? Quem fica sadio se apenas existe numa pequena câmara de repetições humanas viciadas? Sim, quem pode preservar um mínimo de identidade vivendo em tais circunstâncias? Nesse sapatinho de japonesa?
É obvio que os discípulos precisam se reunir..., e juntos devem ter prazer em aprender a Palavra e crescer em fé e ajuda mutua. Todavia, tal ajuntamento é apenas uma estação do caminho, não o seu projeto; é um oásis, não o objetivo da jornada; é um tempo, não é o tempo todo; é uma ajuda, não é a vida.
De minha parte quero apenas ver os discípulos de Jesus crescendo em entendimento e vida com Deus, em amizade e respeito uns para com os outros, em saúde relacional na vida, e com liberdade de escolha, conforme a consciência de cada um.
O ‘ajuntamento’ que chamamos igreja deve ser apenas esse encontro, essa estação, esse lugar de bom ânimo e adoração.
O ideal é que tais encontros gerem amizade clara e livre, e que pela amizade as pessoas se ajudem; mas não apenas em razão de um certo espírito maçônico-comunitário, conforme se vê... ou porque se deu alguma contribuição financeira no lugar.
A verdadeira igreja não tem sócios... Tem apenas gente boa de Deus... e que se reúne e ajuda a manter a tudo aquilo que promove a Palavra na Terra.
Tenho pavor de comunidades!Elas são ameninantes para a alma, geram vilas de doenças, produzem inibição dos processos de individuação, e tornam os homens eternos imaturos... sempre com medo do mundo e da vida.
Sem falar que em todo mundo muito pequeno, como o da ‘comunidade’, as doenças tendem a aumentar... e a ganhar caras e contornos de perversidade travestida de piedade...
É o que eu chamo de peidade! Fica todo mundo querendo se meter onde não foi chamado... É um inferno!
No ‘Caminho da Graça’ estou tentando levar as pessoas a esse entendimento e a essa maturidade, e não tenho nenhuma outra vontade interior de fazer daquilo mais uma ‘igreja’.
Quero ver pessoas que sejam ‘gente boa de Deus’; gente descomplicada e desviciada de ‘igreja’; gente que aprenda o bem do Evangelho primeiro para si e em si mesmas..., e apenas depois para fora...
Portanto, não se trata de um movimento ‘sacerdotal’, intimista e fechado; mas sim de um andar profético, aberto e continuo...
Lá não se busca a média da compreensão... Ao contrário, lá se força a compreensão...
Lá só fica quem realmente quer... e não tento jamais dissuadir ninguém ao contrario de sua vontade.
Não há complicação. Tudo é muito simples. E quem não achar que serve, está sempre livre a achar o que lhe agrada em qualquer lugar. Ou não foi assim que Jesus tratou a tudo no caminho?
A escolha que se tem que fazer é essa: ou se quer uma ‘comunidade’ que existe em função de si mesma, e para dentro; ou se tem um ‘caminho de discípulos’, e que se encontram, mas que não fazem do encontro a razão de ser da vida.
A meu ver, no dia em que prevalecer o modelo do ‘caminho’, conforme Jesus no Evangelho, a vida vai arrebentar em flores e frutos entre nós e no mundo à nossa volta; e as pessoas serão sempre muito mais humanas, descomplicadas e sadias... Mas se continuar a prevalecer o modelo ‘comunitário de Jerusalém’... que de Jerusalém tem apenas o intimismo e o espírito sectário... não se terá jamais nada além do que se teve nesses últimos dois mil anos; ou seja: esse lugar de doentes presunçosos a que chamamos de ‘igreja’.
Para isto... para esta coisa... não tenho mais nenhuma energia para doar. Mas para a vida como caminho, ofereço meu coração mais jovem do que nunca.
Caio Fábio
www.caiofabio.com.br
www.vemevetv.com.br
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2010
O DIA QUE FIZEMOS TUDO ERRADO! por Marcelo Quintela
Se ainda não conhece o Dossiê Nigéria e o trabalho que o Caminho Nações tem realizado, clique no banner ao lado direito e conheça-o antes de ler o texto.
Todo dia eu volto à África.
Hoje meus pensamentos voaram até a cidade de Okon-Eket, cheia de vilarejos paupérrimos e pouco acessíveis. Foi lá que “fizemos tudo errado”, ou ao menos, tudo diferente do que já estávamos pré-determinados a executar naquela que era a fase final da expedição. Fase na qual o grupo visitava o “bicho” sem ser convidado, dentro da casa dele, em vilas, igrejas e lares.
Nessa altura, nós não dávamos mais conta do sol, do suor, do sono e nem de quem somos. Aculturamo-nos. Infiltrados, andávamos com a nossa lucidez misturada à “maluquês” devido ao ritmo alucinante com que as coisas aconteciam.
Hoje percebo que nos esquecemos do tempo e o tempo se esqueceu de passar.
Sempre que o Absurdo determina a ordem do dia, a sensação é de estar numa viagem para fora da própria existência, como num sonho, vivendo um processo atemporal, um parêntese cronológico tomado de um conteúdo todo surreal, ilógico, irracional e inconcebível.
Contudo, nada nos demovia da certeza em Deus de que tudo, o tempo todo, ia dar certo!
Agora que eu analiso essa fase, suponho que a coleção de batalhas vencidas nas primeiras semanas talvez estivesse, finalmente, nos automatizando. Já não havia tanto mistério no fenômeno todo. As personagens eram as mesmas: pastores-bruxos, crianças-bruxas, “jesus” pró-bruxaria, Jesus anti-bruxaria; e finalmente o mesmo desfecho: a vedação de uma rachadura na parede espiritual de algum vilarejo ou família visitada. Era isso. Era assim. Graças a Deus!
Chega, então, mais um dia. Não lembro qual.
Mas lembro que o Clayton, o Cesar e o William se revezavam entre as casas de um bairro e a Tenda do Caminho montada numa praça de alta circulação. Jojo tomou a câmera de vídeo e o Leonardo Lepsch, sua super-máquina fotográfica para nos seguir a uma incursão. Lá fomos eu e o Leo para o dia que o “script” foi diferente dos “roteiros programados”.
Eis a Missão: Buscar uma criança de nove aninhos que estava em pleno processo de “tratamento espiritual”: trancafiado numa igreja há quase três meses, passando por sessões e mais sessões de “libertação” com direito a rituais macabros, o menino fora estigmatizado pelos próprios parentes, que se mantinham submetidos ao pagamento mensal da “internação” do pequenino até que o mesmo tivesse “alta” e pudesse voltar a sua vidinha em casa.
Essa era a “ficha”!
Até onde o carro conseguiu chegar, fui orando, sob o vento quente de sempre, para que uma verdadeira operação de resgate fosse instituída, por força do Espírito! Pedi que a ação estilo “pombo-serpente” dos dias anteriores prevalecesse em cada um de nós também nessa manhã. Daí, fechei meus olhos. Concebi na minha mente que em poucas horas eu teria a criança em meu colo, dentro daquele mesmo carro. Eu não a conhecia, mas já a amava. Eu nem a tinha visto, mas ela já era minha! Minha.
Entretanto, voltei para a cidade com os olhos cheios de vazio, envidraçados... Voltei fitando o nada, até ser finalmente distraído por um verme, uma espécie de larva, um sei lá o quê era aquilo que estava andando na minha calça fabricada em Gana. Voltei sem criança nenhuma. E aquela “minhoca” só podia estar tirando sarro de mim, “sentada” na perna que guardei para trazer salvo o menino! Desgraçada...
***
Eh! Tem dia que a gente se sente um verme mesmo! Mas vocês fariam diferente? Fariam como, então?
Vejam: O carro ficou onde a estrada acabou. Estão construindo um novo caminho. Fomos atolando os pés, até a igreja-prá-lá-do-fim-do-mundo!
Apareceu um barraco todo torto feito de madeira e concreto e enfiado em meio às árvores de copas altas. Era a igreja do sequestrador. O lugar não tinha nome, nem placa, nem chão, nem teto, só umas telhas cobrindo quase metade do “salão”. Uma porta que não fechava direito escondia o interior da “construção”, que fácil se fazia aparecer por suas brechas. Vi que estava cheia de cadeiras, um altar à frente e uma mesa aos pés da qual algumas mulheres mantinham-se agarradas. Era uma igreja sim. Era ali.
Uma jovem senhora veio nos receber vinda da casa ao fundo do “templo”. Acanhada pela surpresa da “visita-branca”, ela parecia meio tensa. Avisamos que viemos em paz para conversar sobre uma criança que a Stepping Stones Nigeria denunciara que estava “internada” nesse endereço. A moça era a esposa do pastor. Pedimos para falar com ele, e ela, prontamente foi procurá-lo.
Enquanto esperávamos, vimos a Diana, da ONG inglesa, agarrada a um pequenino. Ela reconheceu o FAVOR! Sim, esse era o nome dele! Nome inglês, que se pronuncia feivor.
Favor, o “menino-bruxo”, estava vestido sem as roupas em farrapos da maioria das crianças. No rosto, também não tinha as expressões sem expressão dos pequenos que, aos montões, viviam feitas zumbis do estigma, sindrômicos. Ao contrário, esse mocinho tinha o olhar até cheio de contentamento. Apresentamo-nos, e ele se curvava com elegância, sendo seguido por alguns bebês, crianças peladinhas e barrigudas que, assustadas conosco, mantinham-se agarradas à mão do jovenzinho cuidadoso.
O pastor estava no campo, mexendo na terra. Chegou pingando de suor. Esbaforido e introvertido, nos cumprimentou: Sou Samuel! Sua mulher lhe trouxe rápido uma camisa de botão e fomos convidados a conversar. Entramos no “templo” e propus sentarmos em círculo para dar lugar ao Mfon, nosso motorista.
A cada visita percebíamos sua crescente atenção as nossas palavras. O Mfon é um negro enorme que chorou quando o Clayton lhe presenteou com a camisa do Santos que o Robinho vestiu. (Mas, não se enganem com o Mfon... Ele tentou arrancar a orelha de cada oponente que encontrávamos!). Quase sem perceber ele já transitara da assistência neutra e profissional para aquele estado onde as coisas não são mais feitas por dinheiro, mas pelo gosto, pela amizade e agora, pela Causa, que se tornaria a sua própria! O Mfon já estava na roda. Naquela roda e na roda viva da Vida com Cristo!
O Leo apresentou o “Way to the Nation” ao pastor Samuel e falou da Missão “Pequeninos na Nigéria”. Enquanto isso, fiquei olhando os quadros de Jesus olhando prá nós. Tinha Jesus católico, Jesus ocidental, Jesus inglês... As mulheres ao chão estavam deitadas junto ao altar, e suas crianças, os bebês que o Favor trazia, as rodeavam. O pastor disse que elas estavam ali jejuando por causa de seus muitos sofrimentos e carências.
Olhamos, deu muita pena, mas queríamos a história que fomos buscar.
Favor, nove anos.
Seus pais morreram. A vila acusou o menininho e o expulsou. Seu tio o recolheu, mas não queria cuidar dele, não queria o “estorvo”. Então, o levou ao pastor. O casal de pastores praticamente adotou a criança. Nos olhos da mulher vi muito amor e nenhum medo ou culpa, muito diferente dos rostos que mal levantavam a cabeça para nos encarar. Eu disse a ela: “Será que com um olhar tão bom, vocês podem estar fazendo mal a esse pequenino de Jesus?” Ela só meneou a cabeça, negativando a questão. Pedi para que o Mfon nos desse uma noção em dólares do valor mensal que o tio deixava lá. Era uma esmola. Pensão de quem não ama mais. Quantia irrisória. Triste. Por outro lado, o pastor se dizia feliz porque, apesar de tudo, naquela semana ele tinha conseguido uma difícil vitória: colocar o menino numa escola!
Rimos todos juntos de gratidão.
Que cena estranha: Nós, o pastor-bruxo, sua meiga esposa, a criança estigmatizada e FAVORecida naquele cenário coberto de símbolos cristãos, mas repleto de prática pagã. E nós ali, irmanados todos.
De repente, lembrei-me de que eu era um “soldado” e cortei a diplomacia. Em português, combinei com o Leonardo que não teríamos pena do moço e confrontaríamos suas práticas. E passo a passo, repreendendo-o com brandura, fomos instruindo-o nas Escrituras sobre tudo que se mostrava equivocado na crença dele.
“Está vendo esse Jesus aí na parede? Então, pastor, vamos mostrar na sua própria Bíblia o que Ele pensa sobre crianças.” E passamos a recitar em alta voz os versos onde Jesus abençoa crianças. Ele não abençoou somente crianças especiais feito Sansão ou João, anunciados por anjos; e nem somente crianças muito amadas e consagradas na infância, como Samuel ou José do Egito. Não. Jesus abençoou todas as crianças a ele apresentadas. Assim como a Cruz é sobre toda a humanidade; as mãos de Jesus continuam impostas sobre os pequeninos, apesar de seus discípulos continuarem a obstruir o Caminho dos meninos!
Acrescentamos que Cristo se mostrara indignado quando o assunto era criança e o abuso, constrangimento ou embaraço delas: Repreendeu os discípulos-trapalhãos; porteiros do Reino. Exortou os que, intencionalmente, faziam tropeçar e cair algum inocente pequenino, na fé ou na idade. Sugeriu-lhes que se atirassem ao mar sob o peso de pedra de suas culpas antes de sufocar uma criança, bem como garantiu recompensa a quem recebesse qualquer um deles, matando a sede dos que os representam na Terra. Avisou-lhes, ainda, que o REINO era das crianças e de quem se apresentasse como uma delas! Revidou, de igual modo, a provocação dos fariseus no Templo, quando questionaram a bagunça musical ao redor dele (“Bendito o que vem em nome do Senhor!”), assegurando que o perfeito louvor só pode sair da boca de pequeninos de colo e mesmo dos que ainda mamam! Jesus foi ainda mais longe. A gente O percebe se “orgulhando” de que o Pai tenha escondido seus mistérios dos sábios anciãos, e revelado aos pequeninos de coração, as crianças de alma!
O pastor só ouvia e concordava com a cabeça. Devolvi a Bíblia e lhe perguntei:
- “Como essa criança que tem um anjo constantemente diante da face do Pai que está nos céus pode ter nela incorporado um espírito de feitiçaria?”
Ele só calava. “Hein, pastor? Tell us, please...”. Nada.
O Leonardo queria explicações sobre o ritual de libertação. O pastor balbuciou uma resposta envergonhada, mas o Leo entendeu que ele orava e... “pingava”... “pingava”... Não disse o quê e nem onde...
Então, olhando ainda para o Samuel, pedi ao menino Favor que viesse a mim. Eu o sondei e revirei de todo lado, procurando nele alguma marca, mancha, qualquer coisa... O pastor também havia dito que durante o tratamento a criança tinha que dormir de modo a não se mexer, pois quando o seu espírito saia por aí para aprontar bruxarias precisava ter o corpinho do menino na mesma posição para sua “re-entrada”. Pensei na hora: Esse menino dorme amarrado! Examinei seus braços, mãos, punhos, pés... Uma perícia. Não encontrei nada.
-“Feivor, você é feliz aqui?” – Eu perguntei, tendo-o de pé junto a mim.
- “Sim!”
- “Você quer voltar para casa?”
- “Não!”
-“Por que não?”
-“Porque eu gosto deles”, ele afirmou olhando para o casal com ternura. “Essa é minha família”.
-“Você está feliz na escola? Gosta de ir para lá?”
-“Sim, muito!”
-“Você é um bruxo? Você sente que é um bruxo?”
-“Não”
-“Você promete que não vai deixar ninguém fazer você acreditar que é um bruxo?”
-“Sim”
-“Você sabe que Jesus te ama como filhinho dele?”
-“Sim”
- “Você tem medo de Jesus?”
-“Não”.
-“Pastor Samuel, olhe para mim!”
(Bom, confesso que a entrevista com o menino-todo-cheio-de-graça me amoleceu)
Com a mão no ombro pastoral completei: “Irmão, Jesus nunca praticou nenhum ritual de libertação. Ele impunha as mãos, abençoava e pronto! Então, hoje acabaram seus rituais aqui, pastor. Não precisa mais. Você já fez o que pôde. De hoje em diante, você vai fazer assim...”
Então, coloquei minhas mãos sobre a cabeça do menino e orei: ‘Favor, você está livre de todo o mal. O diabo não pode usar você! Você é um favor imerecido a esse mundo e já foi abençoado por Jesus! Amém!’
Pedi ao Leonardo que, impondo as mãos, orasse pelo Samuel e sua esposa, por aquele lugar de sofrimento, dor e cinzas! O Leo orava e com a mão no peito dele, eu senti quando o pastor fibrilou, gemeu por dentro, deixou escapar um tranco de dor. Abri meus olhos e o vi chorando.
Chorou... Acho que ninguém nunca o tinha abençoado, tocado, exortado... Outra criança abandonada.
***
Estávamos indo embora e observei o Mfon sentado num canto, com cara de pranto.
“What´s matter, Mfon?”
“Eu ia pedir para falar, Marcelo, mas preferi calar” – ele dizia, agoniado.
“Então me fala, meu irmão...”
“É que eu penso que, pelo que vocês têm lido na Bíblia sobre Jesus, bastava que eles só fizessem como ela manda fazer e mais nada? Por que ele tem a Bíblia se não usa?”
Só lamentei. Não respondi. Era a hora e o tempo dele. Era seu encontro. O Mfon não estava percebendo, mas já fazia alguns dias que ele não era mais só nosso motorista, pois seu coração estava sendo dirigido pelo Evangelho! Sem heranças religiosas, tudo aquilo era muito confuso para quem estava percebendo que Deus é Amor!
Fomos embora, passando em meio a uns matos altos... O pastor nos acompanhou e ao chegar ao carro, eu não sabia se o abraçava ou se o ameaçava!
O Leonardo fez as duas coisas, e no ouvido dele disse com gravidade: “Eu sei que foi sangue o que você pingou nos olhos dele, sei que você pingou seu próprio sangue nos ouvidos dele; e se você tornar a fazer isso, eu também vou saber! Você está proibido de fazer isso em nome de Jesus! Amém, meu irmão?”
“Amém! Sim, Senhor!”
***
Entramos no carro e nos distanciamos daquele lugar onde o "caminho" ainda estava sendo construído... Quando lancei pela janela o vermezinho, aquela larva que estava em minha perna, pensei o que eu estava fazendo ali se não tinha estrutura alguma para levar um pequenino desses conosco. Elaborei, em seguida: “E como levar uma criança que simplesmente está bem em sua síndrome de Estocolmo?”
E quem me dá o direito de fazer isso? Só por que acho que é tudo grana, poder, maquinação e paganismo cristão, eu posso, então, mexer nas estranhas do coração alheio? E se for por amor...? E se o internato espiritual virou adoção afetiva? E se a libertação virou afeição? Quem conhece os caminhos do amor?
Sim, e se for expressão esdrúxula de nossa humanidade caótica, cheia de paradoxos? Pode ser que tudo seja um conjunto indecifrável de ignorância, óbvio analfabetismo, cultura pagã, cuidados pastorais, preocupações de maternagem, espírito colonizado, falta de informação e vontade de fazer as coisas certas, sem, contudo, sabê-lo!
E se invés de ser um seqüestro para enriquecer bolsos sacerdotais, aquilo tudo seja só o poder da miséria matando-os? E se ao contrário de astúcia, seja ingênuo messianismo, ânsia por libertar, arrancar a chaga, vencer o mal? E se não for paganismo, mas só falta de instrução no Evangelho?
E como ensiná-lo no Caminho sem colonizar sua própria jornada de fé, se seu espírito é tão brando e domável?
Creio, então, que cruzamos com um irmão confuso lutando com as armas do Império das Trevas nas trincheiras alheias.
Sim, por essa eu não esperava: Encontramos um filho da Paz do outro lado do campo de batalha.
Fomos ‘sequestrar’ uma criança, fomos sequestrados e sequestramos seu sequestrador!
O Samuel foi transferido para o Reino do Filho do Amor!
“O Amor tem feito coisas...”
Marcelo Quintela
Santos/SP
É Carnaval no Brasil/2010
Todo dia eu volto à África.
Hoje meus pensamentos voaram até a cidade de Okon-Eket, cheia de vilarejos paupérrimos e pouco acessíveis. Foi lá que “fizemos tudo errado”, ou ao menos, tudo diferente do que já estávamos pré-determinados a executar naquela que era a fase final da expedição. Fase na qual o grupo visitava o “bicho” sem ser convidado, dentro da casa dele, em vilas, igrejas e lares.Nessa altura, nós não dávamos mais conta do sol, do suor, do sono e nem de quem somos. Aculturamo-nos. Infiltrados, andávamos com a nossa lucidez misturada à “maluquês” devido ao ritmo alucinante com que as coisas aconteciam.
Hoje percebo que nos esquecemos do tempo e o tempo se esqueceu de passar.
Sempre que o Absurdo determina a ordem do dia, a sensação é de estar numa viagem para fora da própria existência, como num sonho, vivendo um processo atemporal, um parêntese cronológico tomado de um conteúdo todo surreal, ilógico, irracional e inconcebível.
Contudo, nada nos demovia da certeza em Deus de que tudo, o tempo todo, ia dar certo!
Agora que eu analiso essa fase, suponho que a coleção de batalhas vencidas nas primeiras semanas talvez estivesse, finalmente, nos automatizando. Já não havia tanto mistério no fenômeno todo. As personagens eram as mesmas: pastores-bruxos, crianças-bruxas, “jesus” pró-bruxaria, Jesus anti-bruxaria; e finalmente o mesmo desfecho: a vedação de uma rachadura na parede espiritual de algum vilarejo ou família visitada. Era isso. Era assim. Graças a Deus!
Chega, então, mais um dia. Não lembro qual.
Mas lembro que o Clayton, o Cesar e o William se revezavam entre as casas de um bairro e a Tenda do Caminho montada numa praça de alta circulação. Jojo tomou a câmera de vídeo e o Leonardo Lepsch, sua super-máquina fotográfica para nos seguir a uma incursão. Lá fomos eu e o Leo para o dia que o “script” foi diferente dos “roteiros programados”.
Eis a Missão: Buscar uma criança de nove aninhos que estava em pleno processo de “tratamento espiritual”: trancafiado numa igreja há quase três meses, passando por sessões e mais sessões de “libertação” com direito a rituais macabros, o menino fora estigmatizado pelos próprios parentes, que se mantinham submetidos ao pagamento mensal da “internação” do pequenino até que o mesmo tivesse “alta” e pudesse voltar a sua vidinha em casa.
Essa era a “ficha”!
Até onde o carro conseguiu chegar, fui orando, sob o vento quente de sempre, para que uma verdadeira operação de resgate fosse instituída, por força do Espírito! Pedi que a ação estilo “pombo-serpente” dos dias anteriores prevalecesse em cada um de nós também nessa manhã. Daí, fechei meus olhos. Concebi na minha mente que em poucas horas eu teria a criança em meu colo, dentro daquele mesmo carro. Eu não a conhecia, mas já a amava. Eu nem a tinha visto, mas ela já era minha! Minha.
Entretanto, voltei para a cidade com os olhos cheios de vazio, envidraçados... Voltei fitando o nada, até ser finalmente distraído por um verme, uma espécie de larva, um sei lá o quê era aquilo que estava andando na minha calça fabricada em Gana. Voltei sem criança nenhuma. E aquela “minhoca” só podia estar tirando sarro de mim, “sentada” na perna que guardei para trazer salvo o menino! Desgraçada...
***
Eh! Tem dia que a gente se sente um verme mesmo! Mas vocês fariam diferente? Fariam como, então?
Vejam: O carro ficou onde a estrada acabou. Estão construindo um novo caminho. Fomos atolando os pés, até a igreja-prá-lá-do-fim-do-mundo!
Apareceu um barraco todo torto feito de madeira e concreto e enfiado em meio às árvores de copas altas. Era a igreja do sequestrador. O lugar não tinha nome, nem placa, nem chão, nem teto, só umas telhas cobrindo quase metade do “salão”. Uma porta que não fechava direito escondia o interior da “construção”, que fácil se fazia aparecer por suas brechas. Vi que estava cheia de cadeiras, um altar à frente e uma mesa aos pés da qual algumas mulheres mantinham-se agarradas. Era uma igreja sim. Era ali.
Uma jovem senhora veio nos receber vinda da casa ao fundo do “templo”. Acanhada pela surpresa da “visita-branca”, ela parecia meio tensa. Avisamos que viemos em paz para conversar sobre uma criança que a Stepping Stones Nigeria denunciara que estava “internada” nesse endereço. A moça era a esposa do pastor. Pedimos para falar com ele, e ela, prontamente foi procurá-lo.
Enquanto esperávamos, vimos a Diana, da ONG inglesa, agarrada a um pequenino. Ela reconheceu o FAVOR! Sim, esse era o nome dele! Nome inglês, que se pronuncia feivor.
Favor, o “menino-bruxo”, estava vestido sem as roupas em farrapos da maioria das crianças. No rosto, também não tinha as expressões sem expressão dos pequenos que, aos montões, viviam feitas zumbis do estigma, sindrômicos. Ao contrário, esse mocinho tinha o olhar até cheio de contentamento. Apresentamo-nos, e ele se curvava com elegância, sendo seguido por alguns bebês, crianças peladinhas e barrigudas que, assustadas conosco, mantinham-se agarradas à mão do jovenzinho cuidadoso.
O pastor estava no campo, mexendo na terra. Chegou pingando de suor. Esbaforido e introvertido, nos cumprimentou: Sou Samuel! Sua mulher lhe trouxe rápido uma camisa de botão e fomos convidados a conversar. Entramos no “templo” e propus sentarmos em círculo para dar lugar ao Mfon, nosso motorista.
A cada visita percebíamos sua crescente atenção as nossas palavras. O Mfon é um negro enorme que chorou quando o Clayton lhe presenteou com a camisa do Santos que o Robinho vestiu. (Mas, não se enganem com o Mfon... Ele tentou arrancar a orelha de cada oponente que encontrávamos!). Quase sem perceber ele já transitara da assistência neutra e profissional para aquele estado onde as coisas não são mais feitas por dinheiro, mas pelo gosto, pela amizade e agora, pela Causa, que se tornaria a sua própria! O Mfon já estava na roda. Naquela roda e na roda viva da Vida com Cristo!
O Leo apresentou o “Way to the Nation” ao pastor Samuel e falou da Missão “Pequeninos na Nigéria”. Enquanto isso, fiquei olhando os quadros de Jesus olhando prá nós. Tinha Jesus católico, Jesus ocidental, Jesus inglês... As mulheres ao chão estavam deitadas junto ao altar, e suas crianças, os bebês que o Favor trazia, as rodeavam. O pastor disse que elas estavam ali jejuando por causa de seus muitos sofrimentos e carências.Olhamos, deu muita pena, mas queríamos a história que fomos buscar.
Favor, nove anos.
Seus pais morreram. A vila acusou o menininho e o expulsou. Seu tio o recolheu, mas não queria cuidar dele, não queria o “estorvo”. Então, o levou ao pastor. O casal de pastores praticamente adotou a criança. Nos olhos da mulher vi muito amor e nenhum medo ou culpa, muito diferente dos rostos que mal levantavam a cabeça para nos encarar. Eu disse a ela: “Será que com um olhar tão bom, vocês podem estar fazendo mal a esse pequenino de Jesus?” Ela só meneou a cabeça, negativando a questão. Pedi para que o Mfon nos desse uma noção em dólares do valor mensal que o tio deixava lá. Era uma esmola. Pensão de quem não ama mais. Quantia irrisória. Triste. Por outro lado, o pastor se dizia feliz porque, apesar de tudo, naquela semana ele tinha conseguido uma difícil vitória: colocar o menino numa escola!
Rimos todos juntos de gratidão.
Que cena estranha: Nós, o pastor-bruxo, sua meiga esposa, a criança estigmatizada e FAVORecida naquele cenário coberto de símbolos cristãos, mas repleto de prática pagã. E nós ali, irmanados todos.
De repente, lembrei-me de que eu era um “soldado” e cortei a diplomacia. Em português, combinei com o Leonardo que não teríamos pena do moço e confrontaríamos suas práticas. E passo a passo, repreendendo-o com brandura, fomos instruindo-o nas Escrituras sobre tudo que se mostrava equivocado na crença dele.“Está vendo esse Jesus aí na parede? Então, pastor, vamos mostrar na sua própria Bíblia o que Ele pensa sobre crianças.” E passamos a recitar em alta voz os versos onde Jesus abençoa crianças. Ele não abençoou somente crianças especiais feito Sansão ou João, anunciados por anjos; e nem somente crianças muito amadas e consagradas na infância, como Samuel ou José do Egito. Não. Jesus abençoou todas as crianças a ele apresentadas. Assim como a Cruz é sobre toda a humanidade; as mãos de Jesus continuam impostas sobre os pequeninos, apesar de seus discípulos continuarem a obstruir o Caminho dos meninos!
Acrescentamos que Cristo se mostrara indignado quando o assunto era criança e o abuso, constrangimento ou embaraço delas: Repreendeu os discípulos-trapalhãos; porteiros do Reino. Exortou os que, intencionalmente, faziam tropeçar e cair algum inocente pequenino, na fé ou na idade. Sugeriu-lhes que se atirassem ao mar sob o peso de pedra de suas culpas antes de sufocar uma criança, bem como garantiu recompensa a quem recebesse qualquer um deles, matando a sede dos que os representam na Terra. Avisou-lhes, ainda, que o REINO era das crianças e de quem se apresentasse como uma delas! Revidou, de igual modo, a provocação dos fariseus no Templo, quando questionaram a bagunça musical ao redor dele (“Bendito o que vem em nome do Senhor!”), assegurando que o perfeito louvor só pode sair da boca de pequeninos de colo e mesmo dos que ainda mamam! Jesus foi ainda mais longe. A gente O percebe se “orgulhando” de que o Pai tenha escondido seus mistérios dos sábios anciãos, e revelado aos pequeninos de coração, as crianças de alma!
O pastor só ouvia e concordava com a cabeça. Devolvi a Bíblia e lhe perguntei:
- “Como essa criança que tem um anjo constantemente diante da face do Pai que está nos céus pode ter nela incorporado um espírito de feitiçaria?”
Ele só calava. “Hein, pastor? Tell us, please...”. Nada.
O Leonardo queria explicações sobre o ritual de libertação. O pastor balbuciou uma resposta envergonhada, mas o Leo entendeu que ele orava e... “pingava”... “pingava”... Não disse o quê e nem onde...
Então, olhando ainda para o Samuel, pedi ao menino Favor que viesse a mim. Eu o sondei e revirei de todo lado, procurando nele alguma marca, mancha, qualquer coisa... O pastor também havia dito que durante o tratamento a criança tinha que dormir de modo a não se mexer, pois quando o seu espírito saia por aí para aprontar bruxarias precisava ter o corpinho do menino na mesma posição para sua “re-entrada”. Pensei na hora: Esse menino dorme amarrado! Examinei seus braços, mãos, punhos, pés... Uma perícia. Não encontrei nada.
-“Feivor, você é feliz aqui?” – Eu perguntei, tendo-o de pé junto a mim.
- “Sim!”
- “Você quer voltar para casa?”
- “Não!”
-“Por que não?”
-“Porque eu gosto deles”, ele afirmou olhando para o casal com ternura. “Essa é minha família”.
-“Você está feliz na escola? Gosta de ir para lá?”
-“Sim, muito!”
-“Você é um bruxo? Você sente que é um bruxo?”
-“Não”
-“Você promete que não vai deixar ninguém fazer você acreditar que é um bruxo?”
-“Sim”
-“Você sabe que Jesus te ama como filhinho dele?”
-“Sim”
- “Você tem medo de Jesus?”
-“Não”.
-“Pastor Samuel, olhe para mim!”
(Bom, confesso que a entrevista com o menino-todo-cheio-de-graça me amoleceu)
Com a mão no ombro pastoral completei: “Irmão, Jesus nunca praticou nenhum ritual de libertação. Ele impunha as mãos, abençoava e pronto! Então, hoje acabaram seus rituais aqui, pastor. Não precisa mais. Você já fez o que pôde. De hoje em diante, você vai fazer assim...”
Então, coloquei minhas mãos sobre a cabeça do menino e orei: ‘Favor, você está livre de todo o mal. O diabo não pode usar você! Você é um favor imerecido a esse mundo e já foi abençoado por Jesus! Amém!’
Pedi ao Leonardo que, impondo as mãos, orasse pelo Samuel e sua esposa, por aquele lugar de sofrimento, dor e cinzas! O Leo orava e com a mão no peito dele, eu senti quando o pastor fibrilou, gemeu por dentro, deixou escapar um tranco de dor. Abri meus olhos e o vi chorando.
Chorou... Acho que ninguém nunca o tinha abençoado, tocado, exortado... Outra criança abandonada.
***
Estávamos indo embora e observei o Mfon sentado num canto, com cara de pranto.
“What´s matter, Mfon?”
“Eu ia pedir para falar, Marcelo, mas preferi calar” – ele dizia, agoniado.
“Então me fala, meu irmão...”
“É que eu penso que, pelo que vocês têm lido na Bíblia sobre Jesus, bastava que eles só fizessem como ela manda fazer e mais nada? Por que ele tem a Bíblia se não usa?”
Só lamentei. Não respondi. Era a hora e o tempo dele. Era seu encontro. O Mfon não estava percebendo, mas já fazia alguns dias que ele não era mais só nosso motorista, pois seu coração estava sendo dirigido pelo Evangelho! Sem heranças religiosas, tudo aquilo era muito confuso para quem estava percebendo que Deus é Amor!
Fomos embora, passando em meio a uns matos altos... O pastor nos acompanhou e ao chegar ao carro, eu não sabia se o abraçava ou se o ameaçava!
O Leonardo fez as duas coisas, e no ouvido dele disse com gravidade: “Eu sei que foi sangue o que você pingou nos olhos dele, sei que você pingou seu próprio sangue nos ouvidos dele; e se você tornar a fazer isso, eu também vou saber! Você está proibido de fazer isso em nome de Jesus! Amém, meu irmão?”
“Amém! Sim, Senhor!”
***
Entramos no carro e nos distanciamos daquele lugar onde o "caminho" ainda estava sendo construído... Quando lancei pela janela o vermezinho, aquela larva que estava em minha perna, pensei o que eu estava fazendo ali se não tinha estrutura alguma para levar um pequenino desses conosco. Elaborei, em seguida: “E como levar uma criança que simplesmente está bem em sua síndrome de Estocolmo?”
E quem me dá o direito de fazer isso? Só por que acho que é tudo grana, poder, maquinação e paganismo cristão, eu posso, então, mexer nas estranhas do coração alheio? E se for por amor...? E se o internato espiritual virou adoção afetiva? E se a libertação virou afeição? Quem conhece os caminhos do amor?
Sim, e se for expressão esdrúxula de nossa humanidade caótica, cheia de paradoxos? Pode ser que tudo seja um conjunto indecifrável de ignorância, óbvio analfabetismo, cultura pagã, cuidados pastorais, preocupações de maternagem, espírito colonizado, falta de informação e vontade de fazer as coisas certas, sem, contudo, sabê-lo!
E se invés de ser um seqüestro para enriquecer bolsos sacerdotais, aquilo tudo seja só o poder da miséria matando-os? E se ao contrário de astúcia, seja ingênuo messianismo, ânsia por libertar, arrancar a chaga, vencer o mal? E se não for paganismo, mas só falta de instrução no Evangelho?
E como ensiná-lo no Caminho sem colonizar sua própria jornada de fé, se seu espírito é tão brando e domável?
Creio, então, que cruzamos com um irmão confuso lutando com as armas do Império das Trevas nas trincheiras alheias.
Sim, por essa eu não esperava: Encontramos um filho da Paz do outro lado do campo de batalha.
Fomos ‘sequestrar’ uma criança, fomos sequestrados e sequestramos seu sequestrador!
O Samuel foi transferido para o Reino do Filho do Amor!
“O Amor tem feito coisas...”
Marcelo Quintela
Santos/SP
É Carnaval no Brasil/2010
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